Tudo de novo, de novo?





Por Hermes C. Fernandes   

“Uma geração vai, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre. Nasce o sol e põe-se o sol, e volta ao lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os ribeiros vão para o mar, contudo o mar não se enche. Ao lugar para onde os ribeiros correm, para ali tornam a ir. Todas as coisas são canseiras, mais do que ninguém o pode declarar. Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser, e os se fez, isso se tornará a fazer; nada há novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós. Não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também não haverá lembrança entre os que hão de vir depois delas” (Ecl.1:4-11).

 

Todos almejam uma vida cheia de novidades. Infelizmente, nem todas as expectativas são alcançadas. Às vezes temos a impressão de que cada novo ano também traz algumas reprises. Mais um Carnaval, mais uma Páscoa, e logo, logo, estaremos no meio do ano novamente, e dali pro final do ano, é um pulo! Mais um Verão, seguido de um Outono, que prepara o caminho de mais um Inverno, uma Primavera, e lá vem o Verão de novo… O moinho da existência segue rodando incessantemente.
A rotina produz canseira, enfado, desânimo. Tudo parece repetir-se num ciclo interminável de idas e vindas. Vemos as mesmas coisas, ouvimos as mesmas sentenças. Conclusão: “Nada há novo debaixo do sol”.
Aos poucos percebemos os quão previsíveis as pessoas são. Mesmo quando somos pegos de surpresa por uma traição, por um abandono, sabemos que não é a primeira vez, nem será a última que isso nos acontece. Portanto, até o que deveria nos surpreender se torna claramente previsível.
A dor de hoje cairá no esquecimento, mais cedo ou mais tarde. Daqui a cem anos não terá qualquer relevância. Bendita seja a capacidade que Deus nos deu de esquecer.
Haveria como romper com esse ciclo de monotonia?
Será que tudo estaria condenado a ser como antes? Estaríamos fadados a assistir a uma eterna reprise?
O ser humano aspira pelo novo. Somos todos como os atenienses contemporâneos de Paulo, que“de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir a última novidade” (At.17:21).
Queremos o novo! Mas um ‘novo’ que permaneça ‘novo’ por toda a eternidade. Um ‘novo’ que não envelheça, que não perca o frescor, que vença as demandas do tempo, que não se deixe corroer pela ferrugem ou pelas traças.
Onde encontrar o ‘novo’, se não há nada novo debaixo do Sol?
Mesmo correndo o risco de parecer lugar comum, atrevo-me a dizer que só o encontraremos em Deus! Naquele que diz: “Vede, as primeiras coisas se cumpriram, e novas coisas eu vos anuncio; antes que venham à luz, vo-las faço ouvir” (Is.42:9).
Ora, para que o novo entre em cena, as primeiras coisas devem se cumprir. O velho só sai de cena, após cumprir o propósito de sua existência. Será a partir dele que o novo emergirá.
A grama que foi aparada seca-se e se transforma em adubo para o solo, propiciando o aparecimento de uma nova grama, verde e robusta. O papel dela é se decompor, tornar-se adubo. Se ela não se decompõe, não resta alternativa a não ser removê-la. O feno é o que restou da grama que foi arrancada, e que se negou a decompor-se. Se ele não for removido, sufocará a grama emergente. O aparecimento da nova grama depende da remoção do feno: “Quando o feno for removido, e aparecerem os renovos…” (Pv.27:25).
As coisas passadas são como gramas arrancadas pela raiz. Ou se decompõem, ou devem ser removidas. Não deixe que seu passado comprometa seu futuro.
Repare com que veemência Deus nos exorta quanto a isso:
“Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Vede, eu faço uma nova coisa, que está saindo à luz; não a percebeis? Porei um caminho no deserto, e rios no ermo”(Is.43:18-19).
Sempre existiram ‘caminhos’, como também sempre houve ‘deserto’. A novidade está no fato de Deus pôr ‘caminhos no deserto’. O novo não tem que ser, necessariamente, novo em si mesmo.
Deus não precisaria criar uma nova figura geométrica, diferente do quadrado, do triângulo ou do retângulo, pra dizer que fez algo novo. Deus pode simplesmente fazer algo já conhecido, mas em condições inéditas.
Por exemplo: recentemente li a notícia de que a NASA pretende construir, num futuro próximo, um elevador que ligue a Terra à Lua, para transportar suprimentos para uma eventual base lunar. Do ponto de vista científico, isso é algo absolutamente novo, que chega a soar como ficção, algo não factível. Não há nada de novo em um elevador. A maioria de nós usa elevadores regularmente. Também não há nada de novo com respeito à Lua. Ela é uma velha conhecida nossa. Mas um elevador que ligue a Terra à Lua é algo absolutamente inusitado, novo.
Ao criar a música, Deus fez com que houvesse exatamente sete notas e suas variações em menor, dissonantes e sustenidos. Jamais haverá outras notas além das que já existem.
Entretanto, com um número limitado de acordes, pode-se compor inúmeras canções, desde populares até sinfonias. A seqüência das notas, bem como o ritmo e a harmonia é que vão trazer uma melodia inédita.
Pense nas cores. Todo o espectro de cores se deve à mistura de apenas três cores primárias: o azul, o vermelho e o amarelo. Com apenas três cores, Deus pintou todo o Universo com uma infinidade de tons.
O novo de Deus pode acontecer no campo das conexões. Coisas que já existem podem experimentar uma nova conexão, uma nova interação, com outras coisas que também já existem.
Isso se dá, por exemplo, com nossos neurônios. Eles são os mesmos desde que nascemos, porém as conexões entre eles são constantemente revistas. Algumas se perdem, outras novas são feitas ao longo da vida. Graças a essas conexões é que mantemos as lembranças, as informações.
Tanto as Escrituras, quanto a Ciência, testificam que tudo o que há no Universo surgiu em um só instante. Sem embargo, não há nada novo. Os átomos que hoje formam nosso corpo, já existiam muito antes de nós, e estiveram presentes em tantos outros corpos, mesmo os inanimados. A obra de Criação terminou a bilhões de anos. A Ciência chama de Big Bang, a Teologia chama de Fiat Lux, ou “Haja Luz”. Os seis dias de Gênesis representam o tempo usado por Deus para organizar Sua obra. Deus não precisaria mais do que uma fração de um milionésimo de segundo para criar todas as partículas de que o Universo é formado. A partir daí, Deus está promovendo novas interações entre Suas criaturas (Gn.2:4).
É assim que tudo funciona no Universo de Deus. Nada se perde, tudo se renova ad infitinum.
Tudo o que existe está sendo renovado ininterruptamente.
Um exemplo disso é o nosso corpo: a cada segundo, nosso corpo está se renovando, transformando-se mais rapidamente do que quando trocamos de roupa. Estudos comprovam que trocamos 98% dos átomos de nosso corpo em menos de um ano. Nós desenvolvemos um novo fígado a cada 6 semanas, uma nova pele uma vez por mês, um novo revestimento do estômago a cada 5 dias, um novo esqueleto a cada três meses. Mesmo as células do cérebro com as quais pensamos não são as mesmas do ano passado. Portanto, nosso corpo atual não é o mesmo que utilizamos enquanto aprendíamos a andar. A cada sete anos todas as células do nosso corpo são repostas.
Uma nova conexão requer novas interações. Cada parte deve contribuir efetivamente para que algo novo possa emergir. Assim, o filho gerado é fruto da interação entre dois seres distintos.
Portanto, toda renovação é fruto de conexão e interação.
Há, porém, dois tipos de renovação, uma relativa ao conteúdo, e outra à forma:
# Reformulação
# Reformatação
Reformular é alterar a fórmula. Os ingredientes já existem, mas a mistura entre eles produz algo novo. Portanto, a reformulação se dá no conteúdo, e não na embalagem.
Já a reformatação nada mais é do que dar um novo formato ao algo já existente. Pode-se alterar a forma de algo, sem alterar sua essência.
Pode-se, por exemplo, apresentar o Evangelho numa roupagem nova, reformatado, sem adulterar seu conteúdo. Como também pode-se apresentar uma mensagem contrário ao espírito do Evangelho, mas com uma roupagem cristã, para enganar os menos precavidos.
O Evangelho do Reino, dado o seu caráter inovador, propõe a renovação das estruturas sociais. Os elementos são os mesmos, porém a interação entre eles é radicalmente transformada, de maneira a corrigir eventuais injustiças, produzindo o bem-estar comum.
Em Isaías 61:4 é dito que os que forem restaurados em seus corações pelo anúncio da boa-nova do Reino, “reedificarão as ruínas antigas, e restaurarão os lugares há muito devastados; renovarão as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração”.

 

Para que seja possível a renovação social e coletiva, é necessário que os indivíduos, de per si, sejam restaurados, renovados em seu modo de pensar.

 

Paulo ressalta isso em Romanos 12:2: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
 Conformar-se é adequar-se a uma forma preexistente, encaixar-se dentro de um molde preestabelecido. Com estas palavras, Paulo está denunciando a tentativa do mundo em nos enquadrar em seus padrões de moral, conduta e relacionamentos. Em vez de sermos conformados, somos desafiados a sermos transformados pela renovação da nossa mente.
Transformar é transpor as formas vigentes, e assumir uma nova formatação. Aqui jaz uma importante diferença entre as propostas do Evangelho e das religiões. A transformação promovida pelo Evangelho começa pela reformulação da mente. Tudo deve começar no homem interior. Eis a fórmula da transformação: “O que se une ao Senhor é um só espírito com Ele” (1 Co.6:17). Os ingredientes: nosso espírito e o Espírito de Cristo. A interação entre eles gerará uma Nova Criatura, com um novo pensar, e conseqüentemente, um novo agir (Ver Ef.2:15; 4:22-24; Col.3:9-10).
O indivíduo precisa passar por uma renovação plena, que inclui uma reformulação espiritual, e uma reformatação comportamental. Paradigmas têm que ser substituídos, conceitos e posicionamentos precisam ser reavaliados, a fim de que se possa ser instrumento de renovação da sociedade.
E quando nossas forças físicas faltarem,nossa conexão com Deus nos renderá a renovação de nosso ânimo, do nosso entusiasmo pela vida. Nas palavras de Paulo, “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Co.4:16).

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