Se correr o bicho pega; 4 homens e um segredo

Por Hermes C. Fernandes

O relato bíblico é simplesmente surpreendente:

“Quatro homens leprosos estavam à entrada da porta, os quais disseram uns aos outros: Para que estaremos nós aqui assentados até morrermos? Se dissermos: Entremos na cidade, há fome na cidade, e morreremos aí. Se ficarmos aqui, também morreremos. Portanto, vamo-nos ao arraial siro e nos rendamos. Se nos deixarem viver, viveremos; se nos matarem, tão-somente morreremos” (vv.3-4). Em outras palavras, a conclusão a que esses leprosos chegaram foi “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. O que fazer? Esperar pela morte? Antes de avançarmos no texto, precisamos refletir um pouco mais sobre a situação daqueles homens.

Eram leprosos. Isso significa que eram rejeitados pela sociedade. Viviam fora dos limites urbanos, isolados do resto do mundo. Haviam sido abandonados pela família. E estavam morrendo à prestação. Não sabemos em que grau a lepra se encontrava neles. Se já haviam perdido alguma parte do corpo. Se já estavam em estado terminal. Só sabemos que eram lembretes físicos e visíveis do estado espiritual em que se encontrava aquela sociedade. Eram como zumbis, mortos-vivos, em estado de putrefação antes da morte.

Apesar de sua condição mórbida, eles não perderam o poder de reflexão.

– O que é que estamos fazendo aqui? Não faz sentido ficarmos na porta da cidade, na zona fronteiriça. Ou entramos de vez, ou saímos de vez. Mas se entrarmos, não teremos o que comer. Se ficarmos parados, morreremos do mesmo jeito. Que tal sairmos em direção ao cerco e vermos o que acontece? O pior que pode acontecer é nos matarem; mas já vamos morrer de qualquer jeito. Vamos esperar pra ver, ou vamos fazer alguma coisa?

No crepúsculo, enquanto o rei se preparava pra dormir, o capitão perdia o sono pensando nas palavras do velho profeta, e a população faminta desfalecia, aqueles quatro homens deixaram a porta da cidade e saíram ao encontro de seus destinos.

Àquelas horas do dia, enquanto anoitecia, dificilmente um siro conseguiria alvejá-los com suas flechas. Quando chegaram na entrada do arraial siro… surpresa! Aonde foram parar os siros? O arraial estava abandonado. Havia roupas espalhadas pelo caminho. Os cavalos e jumentos estavam devidamente amarrados. Dentro das tendas, havia muita comida. Alguns pratos foram deixados ainda cheios. Tudo indicava que eles saíram correndo por algum motivo misterioso.

Todos os bens que haviam sido interceptados por eles, e impedidos que chegasse a Samaria, estavam ali. Mercadorias de diversas partes do mundo. Especiarias, tecidos, animais, perfumes, tudo ali, para deleite dos soldados siros.

Imagino aqueles quatro homens assustados, olhando uns para os outros, e dizendo: – Estamos ricos!

O relato bíblico explica que enquanto eles caminhavam, “o Senhor fizera ouvir no arraial dos siros um ruído de carros e de cavalos, como o ruído de um grande exército, de maneira que disseram uns aos outros: Vede, o rei de Israel alugou os reis dos heteus e os reis dos egípcios, para virem contra nós. Pelo que se levantaram e fugiram…” (vv.6-7a).

Cada passo daqueles quatro leprosos ecoava como o trote de uma imensa cavalaria.

Alguns podem entender que Deus pregou uma peça nos siros, uma espécie de pegadinha. Mas prefiro entender que Deus simplesmente conferiu àqueles quatro homens a repercussão na dimensão exata de sua iniciativa.

Talvez aquele som tenha sido dos exércitos celestiais que marchavam juntamente com eles.

O fato é que eles furaram o bloqueio imposto pela Síria. Se quisermos desbaratar bloqueios de qualquer ordem, temos que incentivar a livre iniciativa. As pessoas não podem simplesmente esperar o socorro dos céus. Elas devem agir. O socorro virá na medida em que elas se dispuserem a marchar.

Os exércitos celestiais marcham ao lado de quem caminha.

Não podemos usar nossa condição física, econômica ou mesmo, espiritual, como desculpa para nossa inércia e apatia.

A igreja cristã tem se mantido por muito tempo à porta da cidade. Ficamos acostumados a viver na zona fronteiriça.

Aqueles quatro homens podem representar o alcance do Evangelho de Cristo. O fato de serem leprosos aponta para a maneira preconceituosa com que o mundo nos vê. Nossa mensagem é “escândalo” para quem busca sinais, e “loucura” pra quem busca sabedoria (1 Co. 1:20-24).

Porém, um dia o mundo perceberá que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (v.25).

Somos a igreja de Cristo, os “tirados para fora”. Os que saíram ao encontro dos bens antes interceptados pelos principados e potestades. Nossa vocação é furar os bloqueios promovidos por estruturas injustas, sejam de origem ideológica, política ou espiritual, ou uma combinação de todas essas.

Pena que a igreja não sabe o poder de que está investida. Se soubesse, não continuaria à porta da cidade, inerte, de braços cruzados, à espera do pior. E quando digo ‘igreja’, refiro-me ao povo em si, e não às estruturas eclesiásticas.

“Chegando estes leprosos à entrada do arraial, entraram numa tenda. Comeram e beberam e, tomando dali prata, ouro e vestes, foram-se e os esconderam. Voltaram, entraram em outra tenda, e dali também tomaram alguma coisa, e a esconderam. Então disseram uns para os outros: Não fazemos bem. Este dia é dia de boas novas, e nos calamos. Se esperarmos até a luz da manhã, algum castigo nos sobrevirá. Pelo que vamos e o anunciemos à casa do rei” (vv.8-9).

Duas opções se descortinavam ante seus olhos:


# Guardar segredo


#Partilhar a boa nova

Não fosse a súbita crise de consciência, aqueles homens teriam guardado segredo pelo resto de suas vidas. Por que deveriam compartilhar a boa nova com aquela gente que os tinha rejeitado por tanto tempo?

A igreja cristã é detentora da mais importante mensagem de todos os tempos. Apesar de nem sempre saber as implicações e aplicações dessa mensagem.

E o que ela tem feito? Guardado segredo.

Os princípios contidos no Evangelho poderiam mudar drasticamente a história da civilização humana, se tão-somente fossem compartilhados com o mundo.

O que a igreja precisa saber é que ela existe em função do mundo. Assim como Deus escolheu a Abraão e a sua descendência, para que por meio dele todas as famílias da terra fossem beneficiadas, Deus escolheu a igreja para ser o canal que trará a restauração do mundo.

Temos falhado no cumprimento de nossa missão. Tornamo-nos um fim em nós mesmos. Vivemos em função de nossas próprias necessidades e da manutenção de nossos projetos pessoais.

Se a igreja continuar assim, ensimesmada (voltada para si mesma), ela experimentará uma processo de implosão. Ou ela se volta para o mundo, ou será implodida.

Por isso, tantas denominações têm perdido a relevância, e conseqüentemente, seus membros.

O projeto original de Deus é que a igreja se torne uma referência para o mundo. Ela é uma espécie de amostra grátis, de workshop do reino de Deus. Sua vocação é a de ser paradigma civilizatório. Mas em vez disso, ela se tornou num gueto religioso, repleto de gente ensimesmada.

Conscientes dos riscos que corriam, aqueles leprosos resolveram, unânimes, anunciar a boa nova ao rei.


“Assim, vieram e bradaram aos porteiros da cidade, e lhes anunciaram: Fomos ao arraial dos siros e lá não havia ninguém, nem voz de homem, porém só os cavalos e os jumentos atados, e as tendas como estavam” (v.10).

É claro que o rei não deu crédito àquele anúncio. Ele achou que podia ser uma armadilha dos siros. Por isso, aconselhado por um dos seus servos, enviou cinco cavaleiros para que investigassem e constatassem o fato.


“Foram após eles até o Jordão, e todo o caminho estava cheio de roupas e de objetos que os siros, apressando-se, lançaram fora. Voltaram os mensageiros e o anunciaram ao rei. Então saiu o povo e saqueou o arraial dos siros. Assim houve uma medida de farinha por um siclo, e duas medidas de cevada por um siclo, conforme a palavra do Senhor” (vv.15-16).

Quantos mensageiros do mundo têm entrado em nossos arraiais, para constatar se de fato há coerência entre o que anunciamos e a realidade!

O mundo espera encontrar em nós, no mínimo, coerência entre o que pregamos e o que vivemos. Não podemos ser um microcosmo do mundo, reproduzindo seus vícios e mazelas. Antes, temos que ser uma referência, um sinal vivo da presença do Reino. A igreja deve promover um ambiente acolhedor, onde as pessoas sejam estimuladas ao exercício da livre iniciativa, à partilha de seus bens, à vivência comunitária.

E quanto àquele capitão que havia duvidado da palavra profética de Eliseu?


“Ora, o rei havia colocado à porta o capitão em cujo braço se apoiava, e o povo o atropelou na porta, e ele morreu, como dissera o homem de Deus, o que falou quando o rei descera a ele” (v.17).

Este é o destino de quem se atreve a duvidar dos propósitos de Deus. Acaba sendo atropelado pela história.
Não é a incredulidade humana que vai impedir a execução dos propósitos divinos. Quem crê, participa. Quem duvida, assiste.

Nossa vocação, enquanto seguidores de Cristo, é de ser protagonistas, e não meros expectadores da história.

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