Caminhos

Às vezes nós dizemos, com um suspiro: “Ah, se eu tivesse dez vidas!” Existe um mito de que os gatos têm sete vidas; mas nós, humanos, só temos uma e não podemos duplicá-la nem fazer réplicas de nós mesmos. Daí a necessidade de descobrirmos a vontade de Deus para essa única vida que ele nos deu.
Mas antes de chegarmos ao ponto de descobrir a vontade de Deus é essencial que estabeleçamos uma distinção entre a sua vontade “universal” e a sua vontade “específica”. A vontade universal de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para todo o seu povo; ela é a mesma para todos nós, em todos os lugares e em todos os tempos. Mas a vontade específica de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para pessoas específicas, em lugares especí¬ficos e em tempos específicos. Sua vontade universal é que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”.  A vontade de Deus para todos nós é que sejamos como Cristo; essa vontade não varia de discípulo para discípulo. Sua vontade específica, por sua vez, tem a ver com questões como a escolha de uma profissão ou de um companheiro para a nossa vida, ou como deveríamos gastar nossas energias, nosso tempo, dinheiro, feriados… Estas coisas diferem de uma pessoa para outra. Só depois de fazermos essa distin¬ção essencial entre o “geral” e o “específico” é que esta¬remos em condições de repetir a nossa primeira questão, que é como descobrir a vontade de Deus. Sua vontade “geral” ou “universal” está revelada na Escritura Sagrada. Não que esta contenha engenhosas soluções para os complexos problemas éticos do século XX; mas ela contém princípios que podem ser aplicados a eles. Via de regra está curto dizer que a vontade de Deus para o povo de Deus encontra-se na Palavra de Deus.
A vontade específica de Deus, porém, não se encontra na Bíblia. Não posso negar que uma vez ou outra Deus parece ter guiado certas pessoas por intermédio de um versículo específico extraído de seu contexto. Mas devo acrescentar que ele o faz em virtude de nossa fraqueza. Afinal, a Bíblia não é uma antologia de textos desvinculados, mas, sim, uma revelação histórica, cumulativa. Nós não temos o direito de ignorar o seu sentido original a fim de obrigá-la a falar a nós. Mas o que a Bíblia contém mesmo são princípios que são relevantes a questões es¬pecíficas. O casamento, por exemplo. A Escritura nos dá diretrizes gerais e preestabelece algumas questões. Ela nos diz que o matrimonio é o propósito desejável de Deus para os seres humanos e que o celibato é uma exceção, não a regra; que um dos seus propósitos primordiais ao instituir o casamento foi o companheirismo – portanto, esta é uma importante qualidade a ser buscada em um esposo ou esposa; que o cristão só é livre para casar-se com um cristão; e que o casamento (sendo um compro¬misso de amor, monogâmico e heterossexual, para a vida toda) é o único contexto ordenado por Deus para as relações sexuais. Estas diretrizes gerais são claramente estabelecidas na Bíblia. Mas a Bíblia não diz a ninguém se Deus vai chamá-lo para casar-se ou para permanecer solteiro, nem com quem deverá casar-se (se for esta a sua opção).
Mas como vamos descobrir a vontade específica de Deus, se ele não a revelar através da Escritura? Já que Deus é soberano e livre, eu acho que não nos cabe estereotipar a nossa resposta. No entanto, eu descobri cinco palavras que são guias seguros.
Primeiro, ceder. Nós precisamos ceder, ou dar lugar ao propósito de Deus na nossa vida. Uma vontade que não se rende é o mais sério de todos os obstáculos para se descobrir a vontade de Deus. Se Deus não revela a sua verdade a quem não está disposto a acreditar nela, ele tampouco a revela a quem não está disposto a fazê-la. Pelo contrário, ele “guia os humildes na justiça, e ensina aos mansos o seu caminho”.
Segundo, orar. Simplesmente ceder, ou então entregar com desconfiança, não é suficiente. E preciso também esperar em oração e ser sustentado por ela. “Pedi, e dar-se-vos-á”, Jesus ensinou. “Nada tendes, porque não pedis”, acrescentou Tiago.  Nosso Pai celeste não estraga os seus filhos. Ele não nos revela a sua vontade, a não ser que realmente queiramos conhecê-la e expressemos esse desejo em nossas orações.
Terceiro, falar. Embora um dos fortes do cristianismo protestante seja a insistência no nosso “direito ao juízo privado”, isto não significa que devamos tomar todas as nossas decisões sozinhos. Pelo contrário, Deus nos con¬cedeu uns aos outros em sua família. Portanto, devemos ser humildes o suficiente para falar uns com os outros, inclusive os nossos pais, e buscar o seu conselho, pois “com os que se aconselham se acha a sabedoria”.  Que as nossas decisões sejam tomadas em grupo, assumidas com responsabilidade na rica comunhão em que Deus nos colocou.
Quarto, pensar. Embora nós devamos ceder, orar e pedir conselho, nós sempre acabamos tendo de tomar decisões. Como vimos no capítulo anterior, Deus contrabalança as suas promessas de nos guiar com a sua proibição de que nos comportemos como cavalos e mulas, que não têm entendimento.  Não vamos esperar que ele cumpra as suas promessas de nos guiar utilizando “freio e rédeas” (i.e. por meio da força) ou nos dando uma intuição irracional; ele nos guia por meio da mente que nos deu e que nos possibilita pesar cuidadosamente, em cada situação, os prós e os contras.
Quinto, esperar. É um erro apressar-se e ficar impaciente com Deus. Ele levou cerca de dois mil anos para cumprir sua promessa a Abraão no nascimento de Cristo. Levou oitenta anos preparando Moisés para o trabalho de sua vida. São necessários uns vinte e cinco anos para um ser humano chegar à maturidade.
Portanto, se nós temos que tomar uma decisão dentro de um certo prazo, devemos fazê-lo. Mas, caso contrário, e se o caminho à nossa frente ainda é incerto, o mais sábio é esperar. Penso que o que Deus disse a José e Maria ao enviá-los ao Egito com o menino Jesus serve também para nós: “Permanece lá até que eu te avise.”  Em minha experiência, cometem-se muito mais erros por causa de precipitação do que de protelação.
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