Você é um juiz?

Por Dora Martins

Vivemos em um mundo ruidoso. De muitas palavras. De muito diz que diz. Somos internautas, twiteiros. Temos celulares sempre à mão e em qualquer lugar e hora. Queremos que nos leiam, nos ouçam. Porém, temos dificuldades de parar para ouvir. Quantas vezes impedimos o diálogo: na ânsia de falar não escutamos. Temos muitas desculpas para não ouvir o outro e temos muita vontade de falar. Queremos ser ouvidos, mas não queremos ouvir. Escutar, ouvir é mais difícil. Para ouvir, temos que ficar em silêncio, temos que prestar atenção, temos que esquecer de nossos pensamentos e deixar que a ideia e a voz do outro, que nos fala, entre em nós. Temos que reconhecer que o outro existe e que tem algo de novo para nos dizer. E, ouvindo de verdade o outro, podemos pensar, trocar ideias e aprender e criar novas realidades, juntos.

O juiz, ao julgar um processo, precisa ouvir as duas partes que estão a discutir e, depois de ouvir, deve decidir quem tem mais razão, quem está mais perto do que se quer por justiça. Mas, a justiça no Brasil anda muito devagar e, com o peso de seus entraves burocráticos (falta juiz, falta funcionário, falta material, falta prestigiar o poder judiciário com um dos poderes da democracia) acaba, às vezes, ouvindo mal, falando tarde, ou falando uma língua que nem todos entendem.

Assim é que temos hoje, no cenário brasileiro e mundial a busca por novos meios de se fazer justiça. Justiça Restaurativa e Mediação, por exemplo, são jeitos de fazer justiça na base da conversa, da escuta do outro, do silêncio para ouvir a razões de cada um, e as histórias que cada um tem para contar. Na mediação uma terceira pessoa, imparcial e tecnicamente preparada, auxilia as partes que estão em conflito, possibilitando que elas aumentem a possibilidade de comunicação entre si e cheguem, elas mesmas, à melhor solução de seu problema. De conversa em conversa, ouvindo as razões e motivos do outro, cada um assume a responsabilidade de sua história, de sua conduta e de sua vida.

A Justiça Restaurativa é outra forma de busca para a solução de conflitos que vai além da mediação. Com ela busca-se mudar a perspectiva para a solução do conflito – em vez de punição, diálogo. Através dela alguém que praticou um ato de violência, por exemplo, será levado a refletir sobre isso, a reconhecer seu comportamento inadequado ou mesmo errado, a ter contato com a vítima, com as demais pessoas do grupo e com as consequências que seu ato provocou.

O processo desencadeado pela justiça restaurativa vai além da mediação porque envolve não apenas as duas partes do conflito, mas também a sociedade e até o Estado. Se olharmos para nossa pluralidade, veremos que muitos grupos sociais, aos quais, por equívoco, chamamos de primitivos, praticavam e praticam essa forma de composição de conflitos. A conversa, a escuta, o diálogo, como forma de chegar à pacificação das demandas. A modernidade, portanto, que tanto exaltamos, exige, mais que nunca, o silêncio da escuta e o desejo sincero de ouvir o outro. Então, é sabedoria antiga a ser sempre lembrada – “o silêncio é ouro, a palavra é prata!”

 

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